sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O QUE JEZABEL NÃO FEZ

 

Uma análise exegética de 2 Reis 9.30–33

 

Raimundo Francisco dos Santos

 

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar exegeticamente a perícope de 2 Reis 9.30–33, com o propósito de desconstruir um mito amplamente difundido no meio evangélico brasileiro: a ideia de que Jezabel teria tentado seduzir Jeú por meio do uso de maquiagem e ornamentos. A pesquisa fundamenta-se prioritariamente no texto bíblico, empregando métodos hermenêuticos e exegéticos, aliados à consulta de literatura teológica especializada. Demonstrar-se-á que a interpretação popular da referida passagem carece de sustentação textual, histórica e cultural, constituindo-se como resultado de equívocos interpretativos reiterados ao longo do tempo. Conclui-se que as ações de Jezabel devem ser compreendidas à luz de seu contexto histórico, político e psicológico, e não como uma tentativa de sedução.

Palavras-chave: Jezabel; Exegese bíblica; Hermenêutica; Mitos evangélicos; 2 Reis.

 

Introdução

Um equívoco interpretativo, quando produzido por alguém que detém elevado prestígio social ou autoridade religiosa e repetido de forma recorrente, pode transformar-se em uma verdade aparentemente incontestável. Nem sempre tais falhas decorrem de má-fé; muitas vezes são fruto da insuficiência de conhecimento técnico ou da ausência de rigor hermenêutico, resultando em conclusões precipitadas. Quando isso ocorre, estabelece-se o que se pode denominar de mito: uma explicação aceita coletivamente, mas desprovida de base textual consistente.

No contexto evangélico brasileiro, observa-se a proliferação de narrativas míticas oriundas de leituras bíblicas frágeis ou descontextualizadas. A perícope de 2 Reis 9.30–33 constitui um exemplo emblemático desse fenômeno. Diversos intérpretes sustentam que Jezabel, ao pintar os olhos, adornar a cabeça e posicionar-se à janela, teria agido com o intuito de seduzir Jeú. Tal leitura, entretanto, configura-se como um equívoco exegético que, ao longo do tempo, passou a legitimar discursos moralistas e puritanos em diferentes segmentos da cristandade.

Este artigo propõe demonstrar que tal interpretação não encontra respaldo nem no texto bíblico nem no contexto histórico-cultural do Antigo Oriente Próximo, tratando-se, portanto, de um mito religioso amplamente difundido.

 

Exegese histórico-literária de 2 Reis 9.30–33

A perícope de 2 Reis 9.30–33 insere-se no ciclo narrativo da ascensão de Jeú ao trono de Israel, marcado por violência política, juízo profético e ruptura dinástica. O texto pertence ao gênero narrativo histórico-teológico, cujo objetivo não se limita à descrição factual, mas visa interpretar os acontecimentos à luz da fidelidade ou infidelidade à aliança com YHWH.

O verbo hebraico utilizado para descrever a ação de Jezabel ao “pintar os olhos” (וַתָּשֶׂם בַּפּוּךְ עֵינֶיהָ) refere-se ao uso do pûk, um pó mineral amplamente empregado no Antigo Oriente Próximo tanto por mulheres quanto por homens. Tal prática não possuía, em si, qualquer conotação moral ou sexual. A narrativa não apresenta indicadores semânticos que associem esse gesto à sedução; trata-se de um elemento descritivo neutro, cuja interpretação deve ser condicionada pelo contexto imediato do texto.

Do ponto de vista literário, o narrador constrói Jezabel como uma personagem altiva até o fim. Seu posicionamento à janela (baḥallôn), elemento recorrente na literatura bíblica, sugere autoridade, superioridade e julgamento, e não disponibilidade ou flerte. A janela funciona como espaço liminar entre o poder palaciano e o invasor, reforçando o caráter confrontacional da cena.

 

Dados cronológicos e sua relevância exegética

A análise cronológica desempenha papel relevante na desconstrução da leitura sedutiva da perícope. A partir dos dados fornecidos nos livros de 1 e 2 Reis, é possível estimar, com razoável precisão, a idade aproximada de Jezabel no momento de sua morte.

Considerando que Jezabel possuía cerca de vinte anos ao casar-se com Acabe, que Onri reinou ainda seis anos após o casamento (1Rs 16.23), e que Acabe reinou por vinte e dois anos (1Rs 16.29), Jezabel teria aproximadamente quarenta e oito anos à época da morte de seu marido. Após o reinado de Acazias (dois anos) e de Jorão (doze anos), Jezabel teria cerca de sessenta e dois anos quando ocorreu o episódio narrado em 2 Reis 9.30-33.

Embora a idade, isoladamente, não determine intenções morais, ela contribui significativamente para uma leitura histórica responsável, tornando implausível a interpretação que associa seus atos a uma tentativa de sedução erótica, sobretudo em um contexto de colapso político e iminente execução.

 

Análise contextual da reação de Jezabel

No momento da chegada de Jeú a Jezreel, Jezabel encontrava-se em condição de perda absoluta: viúva, privada de seus filhos e ciente do fim iminente de sua linhagem. Jeú não representava apenas um adversário político, mas o executor do juízo profético anunciado contra a casa de Acabe.

Embora os ritos tradicionais de luto no Antigo Oriente Próximo envolvessem sinais públicos de humilhação, Jezabel, coerente com sua caracterização literária, recusa-se a adotar tal postura diante de seu inimigo. Sua decisão de apresentar-se adornada deve ser compreendida como um ato simbólico de resistência e afirmação de dignidade real.

Nesse contexto, a maquiagem funciona como instrumento de preservação da honra e dissimulação da dor, e não como estratégia de sedução. Trata-se de um gesto político e psicológico, que comunica desafio, altivez e desprezo.

 

A fala ignorada: 2 Reis 9.31

A declaração de Jezabel — “Teve paz Zinri, que matou o seu senhor?” (2Rs 9.31) — constitui evidência decisiva contra a hipótese de sedução. Ao evocar Zinri, Jezabel estabelece uma analogia direta com Jeú, lembrando-lhe do destino trágico de um usurpador que reinou apenas sete dias.

Essa referência carrega ironia, afronta e ameaça velada, revelando um discurso político de resistência e não qualquer tentativa de aproximação erótica. A reação de Jeú, ao ordenar que Jezabel fosse lançada pela janela, confirma que sua fala foi compreendida como desafio, e não como sedução.

 

Conclusão

Este artigo buscou desconstruir um dos mitos mais difundidos no meio evangélico brasileiro acerca da figura de Jezabel em 2 Reis 9.30–33. Demonstrou-se que a interpretação que associa seus atos a uma tentativa de sedução carece de fundamentos bíblicos, históricos e hermenêuticos.

Tal leitura equivocada contribuiu para a consolidação de discursos moralistas e práticas discriminatórias, especialmente contra mulheres, revelando mais sobre os preconceitos dos intérpretes do que sobre o texto bíblico em si. Urge, portanto, uma abordagem exegética mais responsável, fiel ao contexto histórico e literário das Escrituras, a fim de evitar a perpetuação de mitos e julgamentos indevidos.

 

Referências

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês? São Paulo: Vida Nova, 2011.

JACKSON, John Paul. Desmascarando o espírito de Jezabel. Rio de Janeiro: Danprewan, 2023.

KAISER JR., Walter C. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.

SILVA, Moisés. Interpretação bíblica: princípios e prática. São Paulo: C

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