Pretende-se,
nesta série de meditações, uma breve análise acerca dos aspectos que envolvem a
nossa relação com Deus e vice-versa. Estas relações, nas Escrituras, assumem
diversas formas, a exemplo de alegorias e analogias, bem como de determinadas
estruturas que são reais.
Desse modo, na
Bíblia, vamos encontrar a nossa relação com Deus retratada, ora entre o Criador
e a Criatura, ora entre Redentor e Redimidos; em outros momentos, teremos a
alegoria onde Deus será nosso Pai e nós seremos os seus filhos. Em outra, Deus
será Rei e nós seremos o seu povo, seus súditos. Outra figura consiste no Pastor
e suas ovelhas; veremos a imagem do Noivo com a noiva e do marido com a sua
esposa. E ainda a figura do Senhor e seus servos.
Todas essas imagens indicam aspectos da nossa relação com Deus e algo sobre como Deus se relaciona conosco e, por assim dizer, perfazem um quadro geral desse relacionamento. Por meio dessas analogias, figuras, e aspectos da realidade, conseguimos formar uma imagem abrangente da nossa relação com Deus e temos condições de nos guiar de uma forma plena, ou tendente a plenitude, em nosso relacionamento com Deus.
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Principiemos
com o primeiro fato que surge nas escrituras a estabelecer um vínculo entre nós
e Deus. Este fato é a Criação. Nele, Deus é o nosso Criador e nós somos as suas
criaturas. Pois bem, quais aspectos podemos ressaltar dentro desta imagem de Criador
e criação?
Inicialmente nos
surge em evidência, que Deus, como Criador, é aquele que concede tudo o que as
suas criaturas possuem, portanto, ele é doador. Ele supre os seres criados de
tudo o que eles necessitam. Decerto que isso abrange, não somente o que é
visível ou as provisões externas, mas todas as qualidades que nós, suas
criaturas, ostentamos. Sinteticamente, tudo aquilo que a criatura exibe tem a
sua origem no Criador que lhe deu.
E quando
olhamos para aquilo que exibimos, contemplamos uma variedade de coisas que dele
recebemos: a saber, o corpo, a nossa alma, o nosso espírito, a inteligência, a
capacidade de inteligir, de raciocinar, de compreender as coisas, de aprender,
etc.
Deus nos fez
seres inteligentes e criativos, de modo que todas essas potencialidades nos
vieram dele e não constituem, no seu exercício, nada que o afronte. Antes,
essas faculdades, que o glorificam, posto que ele as concedeu para o nosso uso.
Daí nos ocorre
o entendimento que a plenitude de nossa realização como criatura, está
umbilicalmente ligado à realização de todas essas potencialidades. Óbvio,
portanto, que quanto mais as realizamos, tanto mais confirmamos a nossa condição
de criados por ele, posto que assim fomos feitos. Dito de outro modo, o
exercício de nossas potências não é uma transcendência, mas sim a confirmação
de nosso imanente estado: é a consumação de nossa humanidade, enquanto
criatura.
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Além disso,
dentro dessa imagem de Criador e criatura, há outra relação que se estabelece, que
é de proprietário e propriedade. Nesta, aquele que cria é dono da obra por ele
criada e, portanto, possui o direito sobre essa obra. Essa ideia a escritura
nos mostra com uma clareza solar, ao indicar, por exemplo, que somos barro e instrumentos
nas mãos de Deus. Deus é o agente e o dono da obra, e nós somos os instrumentos
de sua ação e simultaneamente a sua possessão.
Enquanto
instrumentos, a nossa vontade, é harmonizada com a vontade divina. Ela não é
anulada, mas não prevalece perante a vontade de Deus. Somos instrumentalizados,
e essa instrumentalização envolve a totalidade das nossas funções, inclusive as
funções superiores que Deus nos concedeu.
De todo modo,
como criaturas, somos tanto receptores das dádivas, isto é, beneficiários da
bondade divina, como também instrumentos da sua graça e de seus desígnios. Nesse
último sentido, já não somos senhores de nós mesmos, mas instrumentos que estão
à disposição da vontade de Deus.
Deus é doador
de tudo que temos. Ele é o nosso Senhor, de modo que tem o domínio, de fato,
sobre as nossas vidas, ao ponto de nos usar, ou antes, ao ponto de conseguir
nos usar, ainda que na condição de seres livres.
De fato, Deus,
nos usa respeitando cada uma de nossas qualidades. Ele não violenta o nosso ser,
e ainda assim nos instrumentaliza, conforme os seus propósitos. Cuida-se de um
domínio magnífico, posto que, com ele, Deus não ofende a sua própria justiça e
forma de agir. Com efeito, o seu domínio é exercido santamente, em uma forma
perfeita e em tudo equilibrada.
***
Mas, não é
somente isto que está envolvido na ideia de Criador e criatura, tendo em vista
que, de nossa parte, significa ainda que devemos andar conforme a natureza para
qual fomos criados. Realmente, isto significa dizer que devemos satisfazer essa
natureza. Ora, satisfazer a essa natureza não implica na redução de nossa
condição humana, antes, em sua plena realização: é cumprindo a natureza que
Deus nos deu, que nos tornamos mais inteligentes, amorosos, humildes, santos,
justos, honestos, e fiéis servos do Criador.
De fato, a
realização da natureza que Deus nos deu, nos humaniza na perfeição daquilo que Ele
designou como humano. Sua plenitude nos eleva ao que de fato é humano. Ora, Deus
nos mostrou o caminho desta elevação perfeita. É um caminho pelo qual não
precisamos nos desumanizar, mas, ao contrário, nos tornamos homens de verdade, homens
conforme aquilo que Deus nos fez.
A imagem desse
homem perfeito é Cristo, o Verbo encarnado, aquele que se humanizou para nos
mostrar como sermos verdadeiros homens. Nesse sentido, ser criatura é cumprir a
humanidade que Deus colocou em nós, conforme o homem perfeito revelado em Jesus
Cristo.
Com efeito, quando
pecamos, nos desumanizamos. Se faz necessário, portanto, recompor o significado
da palavra “humano”, para significar exatamente a criatura que Deus fez, e não
a sua forma deformada pelo pecado.
Humanizar-se é
buscar a humanidade que Deus criou: perfeita, sábia, justa, santa, bondosa,
amorosa, e não a humanidade caída, conforme vemos atualmente. De fato, alguns
segmentos da sociedade, buscam levar a humanidade caída ao extremo de sua
perversão, sob o pretexto de humanizá-la.
Com efeito,
esses setores da sociedade, identificam os ideais humanos com os valores que
desumanizam o homem, havendo uma inversão na própria concepção do que seja um
ser humano. Eles tomam como paradigma, o homem rebelde, e louvam as suas
perversões, como se fossem a expressão de sua natureza original.
***
Ora, a bíblia
nos mostra o ser humano perfeito. Ela nos apresenta essa criatura perfeita em
dois momentos: o primeiro com Adão, o ser humano perfeito em vista do que fora
criado. Se tem ali um homem que recebe uma mulher, uma fêmea, a quem ele nomeia,
e Deus realiza o seu casamento com ela. Nesse casamento, Deus estabelece uma
comunhão entre eles na qual eles passam a ser uma só carne. Portanto, partilham
da mesma natureza humana.
Deus, coloca
Adão como cabeça, isto é, como chefe do lar, e põe ambos para trabalharem no Jardim
do Éden. Esta humanidade perfeita, que não conheceu o pecado, durou pouco tempo,
e já no capítulo 3 de Gênesis, lemos que ela pecou.
O segundo
momento em que a bíblia nos mostra o homem perfeito, é em Cristo Jesus, homem a
quem Deus gerou pelo poder do Espírito Santo no ventre de Maria. Vemos esse
homem perfeito reafirmando aquilo que Deus havia feito lá no Gênesis, quando
disse que no princípio Deus criou homem e mulher, e os fez partilhar da mesma
natureza, formando uma só carne.
Esta é a
criatura que Deus formou, a qual a Bíblia nos mostra. Este é o padrão que temos
a seguir. Portanto, devemos nos acomodar à revelação bíblica da Criação,
buscando vivê-la, ainda que ao sacrifício de nossas vaidades e perversões, o
que, ao fim, nos será de grande utilidade.
***
Por fim, não é
menos verdade, que as demais imagens da relação Deus-homem, já estão, de certa
forma, inclusas na ideia da criação. Nesse sentido, conquanto venha em primeiro
lugar, o fato da Criação sintetiza todas as outras imagens e, ao mesmo tempo,
constitui o ponto desde a qual elas vão se expandindo para constituírem
universos próprios de significações.
A Criação,
portanto, é o princípio de tudo. Não é somente uma imagem, mas é o fato que
gera todas as imagens e as demais coisas: Deus como Criador, é Deus como
Senhor, como Proprietário, como Rei e Doador. Na ideia de Doador ingressa a
ideia de Provedor; e na ideia de Provedor, a de Pai, de Marido, Pastor, etc. Na
Criação, Deus é tudo e o Princípio de tudo.
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